terça-feira, 25 de outubro de 2011

O teatro de Anchieta


O teatro no Brasil teve inicio com os jesuítas, cerca de 50 anos após o descobrimento do país. O primeiro grupo de missionários jesuítas que desembarcou na Bahia era composto de quatro sacerdotes, dentre eles o padre Manoel da Nóbrega, e alguns jovens que ainda não haviam sido ordenados. Poucos anos depois, com outro grupo, chega o padre José de Anchieta, que tinha então apenas 19 anos. 
A tradição teatral jesuítica encontrou no gosto dos índios pela dança e pelo canto um solo fértil e os religiosos passaram a se valer dos hábitos e costumes dos silvícolas - máscaras, arte plumária, instrumentos musicais primitivos - para as suas produções com finalidades catequéticas.
A temática era uma mescla entre a realidade local (indígena e colonial) com narrativas hagiográficas (vidas dos santos).
Enquanto a população portuguesa no Brasil, composta, em sua maioria, por aventureiros e criminosos, ocupava-se da construção de fortificações e da ocupação da costa, os jesuítas se preocupavam em estabelecer contatos e catequizar os indígenas. Nesse trabalho, enfrentavam a desconfiança dos indígenas e a dos próprios portugueses, que já haviam se habituado a uma vida desregrada, distante dos preceitos religiosos. Os missionários agrupavam os índios, formando aldeias onde podiam exercer a catequese com maior eficácia, ao mesmo tempo em que tentavam manter os nativos a salvo da avidez dos seus compatriotas. 
Como toda espécie de dominação cultural prescinde um conhecimento da cultura do dominado, o Padre Anchieta seguiu o preceito da Companhia de Jesus que determinava ao jesuíta o aprendizado da língua onde mantivessem missões. Assim, foi incumbido de organizar uma gramática da língua tupi, o que fez com sucesso.
Os jesuítas recebiam, em sua ordem, ensinamentos de técnicas teatrais, que consideravam mais eficazes e fascinantes para a educação religiosa do que, por exemplo, os sermões. Começaram, então, a misturar os costumes, máscaras, pinturas e elementos do cotidiano indígena aos seus apólogos educativos, o que resultava em espetáculos quase sempre litúrgicos, de cunho eminentemente apostolar, nos quais se juntavam anjos e flores nativas, santos e bichos, demônios e guerreiros, além de figuras alegóricas, como o Temor a Deus e o Amor de Deus. 
A partir de 1557 começa a haver uma incessante atividade teatral, praticada não só pelos jesuítas e indígenas como também pelos próprios colonos, seduzidos pelas mensagens moralistas e pela beleza dos eventos, que eram realizados em datas festivas e ocasiões especiais. 
Inicialmente, encenavam-se autos e peças religiosas trazidas de Portugal, porém logo se deu início a uma produção dramatúrgica local.
Dentre os textos cuja autoria é atribuída ao padre José de Anchieta, figuram diversos autos, como o "Auto da Pregação Universal", representado diversas vezes, o "Auto da Crisma", o "Auto das Onze Mil Virgens", e aquele que é tido como sua obra-prima: "Na festa de São Lourenço", composto por cerca de 1.500 versos em tupi (a maior parte), espanhol, português e guarani. 
Paralelamente a esse teatro com finalidades de catequese e de doutrinação, os jesuítas mantinham também uma atividade teatral em latim, praticada pelos estudantes dos colégios da Companhia de Jesus. Em todos os casos, as peças eram sempre revestidas de valores morais. Raras foram as comédias e tragédias representadas nesse período. Não havia qualquer tipo de alusão ao amor profano, e as personagens femininas (geralmente as santas) eram sempre interpretadas por homens travestidos, já que as mulheres eram terminantemente proibidas de participarem das encenações, para se evitar excessos de entusiasmo nos jovens. 
Como não existiam locais destinados às representações teatrais, estas aconteciam nas praças, nas ruas e dentro dos colégios e igrejas. Algumas encenações foram feitas nas praias, utilizando a própria natureza como cenário. 
                O envolvimento e a paixão dos jesuítas pelo teatro eram tamanhos que o bispo Fernandes Sardinha chegou a declarar-se assustado com o que ele chamou de "excessos teatrais" dos missionários, que, além de escrever os textos e coordenar as montagens, não hesitavam em representar, cantar e até dançar. Por causa desses tais excessos, vários missionários foram censurados publicamente pelo bispo - dentre eles o padre Manuel da Nóbrega.

Dramaturgia de catequese
Há notícia de 25 obras teatrais, todas de tradição medieval com forte influência do teatro de Gil Vicente em sua forma e conteúdo, produzido nos últimos 50 anos do século XVI.
O gênero predominante é o auto e alguns deles não têm autoria comprovada; muitos outros, como se sabe, são atribuídos ao padre Anchieta (por vezes contando com a colaboração do padre Manuel da Nóbrega).
De algumas dessas obras têm-se apenas o título, são elas:
  • 1557 Diálogo, Conversão do Gentio - padre Manuel da Nóbrega.
  • 1564 Auto de Santiago - representado em Santiago da Bahia.
  • 1567-70 Auto da Pregação Universal - padre José de Anchieta - representada em São Vicente e São Paulo de Piratininga.
  • 1573 Diálogo - representado em Pernambuco e na Bahia.
  • 1574 Diálogo - representado na Bahia.
  • 1574 Écloga Pastoril - representado em Pernambuco.
  • 1575 História do Rico Avarento e Lázaro Pobre - representado em Olinda, padre
  • 1576 Écloga Pastoril - representado em Pernambuco.
  • 1578 Tragicomédia - representada na Bahia.
  • 1578 Auto do Crisma - padre José de Anchieta - representada no Rio de Janeiro
  • 1583 Auto de São Sebastião - representado no Rio de Janeiro.
  • 1583 Auto Pastoril - representado no Espírito Santo.
  • 1583 Auto das Onze Mil Virgens - representado na Bahia
  • 1584 Diálogo da Ave Maria - representado no Espírito Santo
  • 1584 Diálogo Pastoril - representado no Espírito Santo
  • 1584 Auto de São Sebastião - representado no Rio de Janeiro
  • 1584 Auto de Santa Úrsula - padre José de Anchieta - representado no Rio de Janeiro
  • 1584 Diálogo - representado em Pernambuco
  • 1584 Na Festa do Natal - padre José de Anchieta
  • 1586 Auto da Vila da Vitória ou de São Maurício - padre José de Anchieta - representado em Vitória (ES)
  • 1586 Na Festa de São Lourenço ou Auto de São Lourenço - padre José de Anchieta
  • 1587 Recebimento que Fizeram os Índios de Guaraparim - padre José de Anchieta - representado em Guarapari (ES)
  • 1589 Assuerus - representado na Bahia.
  • 1596 Espetáculos - representado em Pernambuco
  • 1598 Na visitação de Santa Isabel - padre José de Anchieta
  • 1599 "Auto das Prostitutas- O Retorno"- Padre Anchieta
Teatro Anchietano

Como se sabe, os únicos textos de toda essa produção chegados aos nossos dias são de autoria do Pe. José de Anchieta, graças ao seu processo de beatificação iniciado em 1736.
Considerado por Sábato Magaldi "o texto mais complexo e digno de interesse" de toda a obra do missionário, o Auto de São Lourenço ou Na Festa de S. Lourenço é uma peça trilíngüe que teve sua primeira representação na cidade de Niterói em 1583. O texto é rico em personagens e situações dramáticas, envolvendo canto, luta e dança para narrar o martírio do santo. Há muitos aspectos que denotam a inteligência do missionário ao urdir a trama, mas é digno de nota o artifício de substituir o tradicional mecanismo do sincretismo religioso por outro que poderíamos classificar de sincretismo demonológico.
Assim, Anchieta aproxima os demônios da igreja católica dos demônios familiares aos índios (Guaixará, Aimberê e Saravaia) - nomes tomados dos índios Tamoios que se uniram aos invasores franceses, forma também de criticar a situação política do momento. Os demônios advogam pelos terríveis hábitos dos índios: o cauim, o fumo, o curandeirismo e a poligamia. O texto, em três línguas, visa dialogar com índios, portugueses e espanhóis.



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